quinta-feira, 28 de junho de 2012

Explicação teórica sobre Semântica dos modos e tempos verbais

In principio erat uerbum

Passaremos a estudar agora o verbo, sob o ponto de vista da semântica.

1.1 Mas o que é semântica?

Quando falamos em semântica, falamos em significação. Ora, quando digo que vamos estudar a semântica dos modos e tempos verbais, quero dizer que estudaremos o que eles significam, quais os significados que carregam.

Estudaremos as semânticas dos modos e tempos verbais, isto quer dizer que estudaremos o que cada modo e cada tempo significam.

2. Semântica dos MODOS e TEMPOS verbais

O modo verbal é aquilo que vai mostrar minha posição de dúvida, de certeza, de desejo, de ordem a respeito da ação expressa pelo verbo. Vamos ver como funciona na prática?

2.1 Modo Imperativo

O que é imperar? Segundo o dicionário é dominar, governar, reinar, estabelecer. Pensando assim, entendemos a semântica (agora que já sabemos que semântica é o mesmo que significação) deste modo. O imperativo é o modo que dá uma ordem, um conselho, uma dica, uma súplica, uma sugestão ou faz um pedido.

Ex.: Faça o dever.
Leia com atenção.
Pare.
Não faça isso.
Não confiemos tanto nas pessoas.
Não desistamos de nossos ideais.

-> Estudamos o tipo textual injuntivo e vemos que ele é o tipo textual usado por quem dá uma ordem. Dissemos que ele utiliza o modo verbal imperativo. Agora tudo ficou mais claro, não?

-> Outra observação a respeito do imperativo é a confusão que podemos fazer ao usá-lo no “nós”, por não estarmos acostumados a conjuga-lo desta maneira. Uma dica é transpor para a segunda ou terceira pessoa do singular, para que vejamos com mais clareza que é uma forma imperativa e não confundamos com o subjuntivo. Além disso, veremos mais à frente que o subjuntivo depende sempre de uma subordinação, o que não ocorre com o subjuntivo.

Não desistamos de nossos ideais. ~> Não desista de seus ideais.
Não confiemos tanto nas pessoas. ~> Não confie tanto nas pessoas.

O modo imperativo é formado a partir do presente do indicativo e ele não se subdivide em tempos.

2.2 Modo Subjuntivo

O modo subjuntivo está ligado à subjetividade. Subjetividade diz respeito aos nossos julgamentos de valor, às nossas opiniões, à nossa singularidade de pensamento. O modo subjuntivo sempre vai exprimir uma avaliação subjetiva das ações expressas pelo verbo; portanto, ele é o modo da incerteza, do desejo, da possibilidade. A semântica do subjuntivo nunca será de certeza, mas sempre de possibilidade, dúvida, irrealidade.

Ex.: Espero que ele venha.
Quero que ele venha.
Se ele viesse seria muito bom.
Se você fizesse o dever regularmente, tudo seria mais fácil.

-> Como já dissemos antes, o verbo no subjuntivo tem uma particularidade. Ele ocorre somente em estruturas subordinadas. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que ele vai aparecer em uma estrutura dependente de um outro verbo – quero (verbo do qual o subjuntivo depende) que ele venha (subjuntivo), ou dependente de um nome – talvez (nome do qual o subjuntivo depende) ele venha (subjuntivo).

-> O modo subjuntivo se subdivide em três tempos: presente, futuro e pretérito imperfeito. Não daremos tanta importância à semântica desses tempos pois não é o foco do vestibular; falaremos apenas das marcas formais que os identificam.

2.2.1 Presente do Subjuntivo

Marcas formais que o identificam: E/A
Ex.: Quero que você trabalhe.
Tomara que ele venha.

2.2.2 Futuro do Subjuntivo

Marca formal que o identifica: R
Ex.: Quando eu chegar, abra a porta.
Se eu for, te avisarei antes.

2.2.2 Pretérito Imperfeito do Subjuntivo

Marcas formais que o identificam: SSE
Ex.:
Se você deixasse, eu iria.
Se eu pudesse, eu faria.

2.3 Modo Indicativo

O modo indicativo é o mais versátil. Ele é o único que afirma, que fala com certeza. Porém, isso não impede que ele possa trabalhar também com a dúvida e com a possibilidade.

Ex.: Eu sei que ele vem.
Eu acho que tudo dará certo.
Eu fiz todo o dever.
Eu não saí ontem.

Além disso, vimos que o modo subjuntivo somente ocorre em uma estrutura subordinada, dependente de um nome ou de um outro verbo. O indicativo, por sua vez, pode ou não ocorrer em uma estrutura subordinada.

Ex.: Eu não sei nada da matéria! (estrutura sem subordinação, não depende de nenhuma outra)
Eu quero que tudo certo.

O está subordinado ao verbo quero, não poderia existir sem ele. Não existe a frase tudo dê certo, parece que falta algo, não é? Essa sensação de que falta algo é por causa da subordinação.

O modo indicativo se divide em presente, pretérito e futuro e os tempos pretérito e futuro se subdividem também. Vamos ver.

2.3.1 Presente do Indicativo

Tempo verbal é a categoria que indica quando aconteceu a ação expressa pelo verbo, em relação a outro marco temporal. Em geral, os fatos são considerados no tempo em relação à enunciação, ou seja, ao momento em que se fala. Porém, há dois tempos no modo indicativo um pouco diferentes e que veremos mais à frente. Por enquanto, vamos nos deter ao presente do indicativo.

Vimos que o modo indicativo é o mais versátil, devido às variadas semânticas que ele possui em relação aos outros modos. Agora vamos ver que o presente do indicativo é o tempo mais versátil em relação aos outros tempos, é o que possui a maior quantidade de possibilidades semânticas, é o que pode adquirir maior quantidade de significados.

a) Rotina

O presente do indicativo pode indicar um fato rotineiro, que costuma acontecer com frequência.

Ex.: Sempre acordo às 6 da manhã.
Eu estudo todos os dias.

b) Fato simultâneo ao momento da fala

O presente do indicativo pode indicar um fato que está acontecendo no momento em que se fala.

Ex.: Vagner Love chuta a bola para o gol.
Estou na casa de uma amiga.

c) Passado

O presente do indicativo pode indicar um fato que já ocorreu. Em geral, o tipo textual narrativo usa muito o presente com a intenção de aproximar a história do leitor, fazer com que o leitor sinta que está assistindo à história, participando dela.

Ex.: Em 1808, a família real chega ao Brasil.
Após falar isso, Isabela sai, sem ao menos olhar pra trás.

d) Futuro

O presente do indicativo pode indicar um fato que ainda vai ocorrer, este uso é muito comum na linguagem coloquial, no nosso falar cotidiano.

Ex.: Na próxima semana eu vou à sua casa.
Amanhã eu te ligo sem falta.

e) Verdade absoluta

O presente do indicativo pode indicar uma verdade absoluta, um fato constante e que todos concordam, uma verdade universal.

Ex.: A terra gira em torno do sol.
A água ferve a 100ºC.

2.3.2 Pretérito Perfeito do Indicativo

O pretérito perfeito do indicativo, assim como o presente do indicativo, não possui marca formal de modo ou tempo que o identifique. Passemos, então, à análise de seus possíveis significados.

O pretérito perfeito do indicativo é o tempo que indica um passado pontual, um fato que aconteceu e já está acabado. Porém, ele pode também indicar um fato com aspecto durativo, com uma semântica de continuidade. Vejamos.

a) Fato pontual no passado

Fato pontual no passado é um fato que aconteceu em um momento e terminou, não teve uma duração estendida, sendo, por isto, pontual.

Ex.: Ele pulou alto.
Joguei futebol ontem.

b) Fato durativo no passado

Fato durativo é aquele que teve uma duração, ou seja, ocorreu durante algum tempo, mesmo que pequeno.

Ex.: Falei no telefone por horas.
Ela leu durante três horas.

2.3.3 Pretérito Imperfeito do Indicativo

Enquanto o pretérito perfeito pode indicar uma ação que foi concluída no passado, com aspecto durativo ou não, o pretérito imperfeito só pode indicar uma ação com aspecto durativo, uma ação que ocorreu por certo tempo, por isso se chama imperfeito, pois a ação que ele indica não foi finalizada imediatamente, mas demorou algum tempo para ser finalizada ou a ação costumava acontecer.

Ex.: Eu jogava bola todos os dias.
Eu lia muito na biblioteca.

Marcas formais que o identificam: VA/VE/IA/IE

Ex.: Eu cantava muito no karaokê antigamente.
Vós faláveis demais.
Ela lia sem parar Harry Potter.
Vós vendíeis bem antigamente.

2.3.4 Pretérito Mais Que Perfeito do Indicativo

Quando começamos nossa conversa sobre tempo verbal, dissemos que a maioria dos tempos se refere ao momento em que se fala, porém temos exceções. São duas as exceções, uma é o futuro do pretérito, que veremos mais à frente e a outra exceção é o pretérito mais que perfeito. Esses dois tempos não se referem ao momento da enunciação, ou seja, ao momento em que se fala, mas se referem a um momento indicado por um outro verbo.

O pretérito mais que perfeito do indicativo não está em relação ao momento da fala, mas a um outro verbo também no pretérito. A ação que o pretérito mais que perfeito indica, ocorreu antes de uma outra, também no passado, por isso ele é chamado de pretérito mais que perfeito, pois ele é passado em relação a um outro fato também ocorrido no passado.

Ex.: O pai chegou ao local em que o acidente acontecera.

A ação expressa pelo verbo no pretérito mais que perfeito acontecera, ocorreu antes da ação expressa pelo verbo no pretérito perfeito chegou.

Ex.: Ela já fizera o que lhe pedi quando lhe telefonei.
Nós já partíramos quando você chegou, desculpe-nos!

-> Atualmente, o pretérito mais que perfeito não é utilizado na fala e tem sido pouco utilizado, inclusive, na escrita, se restringindo à linguagem poética (Pudera não ser tão voluptuosa!); na fala, tende a ser substituído por uma locução de particípio com verbo auxiliar ter ou haver no pretérito imperfeito:

Ex.: Ela já fora quando eu cheguei. (pretérito mais que perfeito)
Ela já tinha ido quando eu cheguei. (locução verbal: auxiliar ter no pretérito imperfeito + particípio)

Ele já fizera o trabalho quando lhe telefonei. (pretérito mais que perfeito)
Ele já havia feito o trabalho quando lhe telefonei. (locução verbal: auxiliar haver no pretérito imperfeito + particípio)

-> O pretérito mais que perfeito tem outra particularidade. Além de ele ocorrer em relação a um outro passado, ele pode também ocorrer em expressões exclamativas, algumas cristalizadas, como, por exemplo, Quem me dera! Algumas dessas expressões exclamativas ainda permanecem em uso.

Marcas formais que o identificam: RA/RE (átonos)

Ex.: Eu já fizera todo o trabalho sozinha quando você me ofereceu ajuda.
Vós vendêreis todo o estoque antes de o novo chegar.

2.3.5 Futuro do Presente do Indicativo

O futuro do presente do indicativo representa uma ação posterior ao momento em que se fala. Ele pode ter três semânticas. Vejamos

a) Futuro em relação ao momento em que se fala

O futuro do presente pode indicar um fato que ocorrerá após o momento da enunciação

Ex.: Amanhã vencerei o jogo, não há dúvida.
Amanhã irei à sua casa pela manhã.

b) Dúvida

O futuro do presente pode indicar dúvida de quem fala em relação a um fato. Ocorre em frases interrogativas.

Ex.: Será ela a pessoa certa?
Tudo dará certo amanhã?

c) Ordem

O futuro do presente pode indicar uma ordem, equivalendo semanticamente ao imperativo.

Ex.: Não matarás.
Não roubarás.

Marcas formais que identificam o futuro do presente do indicativo: RA/RE (tônicos)

Ex.: Amanhã estudarei o dia inteiro.
Tem certeza de que fa isso?

2.3.6 Futuro do Pretérito do Indicativo

O futuro do pretérito não indica um fato futuro em relação ao momento da enunciação, mas um fato futuro em relação a um fato expresso por um outro verbo. Por isso se chama futuro do pretérito, pois ocorreu depois de uma ação do passado; é futuro em relação a esta ação.

Ex.: Eu sabia que ela iria à casa de minha amiga.

O verbo no futuro do pretérito iria refere-se a um fato que aconteceu depois do fato expresso pelo verbo no pretérito imperfeito sabia. Ir, portanto, é futuro em relação a saber.

Ex.: Eu tinha certeza de que ela faria isso.
Ele contaria tudo se eu não chegasse a tempo.

-> Atualmente, o futuro do pretérito não é utilizado na fala, sendo substituído pelo pretérito imperfeito do indicativo:

Ex.: Eu sabia que ela iria à casa de minha amiga. (futuro do pretérito)
Eu sabia que ela ia à casa de minha amiga. (pretérito imperfeito)

Se ele soubesse os detalhes, contaria-me tudo. (futuro do pretérito)
Se ele soubesse de detalhes, contava-me tudo. (pretérito imperfeito)

O futuro do pretérito pode ter, ainda, outras significações

a) Polidez

O futuro do pretérito pode ser utilizado para pedir um favor, fazer uma solicitação de forma educada.

Ex.: Você me emprestaria sua caneta?
Você me faria esse favor?

b) Dúvida

O futuro do pretérito poder indicar dúvida, incerteza.

Ex.: Seria ela a pessoa ideal para o cargo?
Seríamos nós os vencedores?

c) Afastamento do que está sendo dito

O futuro do pretérito pode ser utilizado com a finalidade de afastamento do que se diz, o enunciador (quem fala) produz uma sentença de dúvida, mas como se aquela opinião não fosse dele, como se aquela opinião fosse de outras pessoas e ele apenas a estaria transmitindo.

Ex.: Segundo alguns disseram, João seria o culpado.
Ana disse que Mariana viria aqui, eu não sei.

Marcas formais que identificam o futuro do presente do indicativo: RIA/RIE

Ex.: Ele acreditou que chegaria a tempo.
Comeríeis melhor se não fosseis a um restaurante fast food.

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